BORA Conversar? |Estúdio MRGB – Igor Campos e Hermes Romão

Alex Brasileiro: Olá pessoal, eu sou o Alex Brasileiro do blog BORAnaOBRA e hoje estamos aqui com os arquitetos Igor Campos e Hermes Romão do Estúdio MRGB. O escritório tem atuação nacional. O Igor Campos colaborou com o escritório Sérgio Parada, no aeroporto internacional de Brasília. O Hermes é sócio dele no MRGB participou com o Paulo Henrique Paranhos em alguns trabalhos também, vários concursos nacionais promovidos pelo IAB e além de atuar no mercado de arquitetura, o Igor Campos é professor do UniCeub e da UnB. E para quem não conhece, o Estúdio MRGB, além dos belíssimos projetos que têm desenvolvido recentemente, tem nos presenteado também com uma série de belíssimas fotos registradas, pelo que entendemos, durante as visitas às obras de execução dos seus projetos, as fotos são de autoria dos dois e com um olhar mais poético do Hermes… Ele tem essa paixão por fotografia, a gente já chegou a conversar em outros momentos sobre isso. E essas fotos mostram além da evolução construtiva, detalhes que por menores no processo construtivo: a mão do operário, o arquiteto na obra, a questão de luz e sombra, terra, concreto, madeira, enfim…. Parece poesia feita no dia a dia que muitos de nós as vezes passamos, mas poucos tem o olhar tão sensível para registrar essa construção. As casas têm um “q” de ser vivo no registro de vocês, essa é a nossa análise quase como um nascimento. Na edição dessa entrevista vamos colocar algumas fotos para que vocês saibam do que a gente ta falando, vamos colocar o link de vocês do MRGB e das redes sociais também, para que vocês, assim como eu, possam acompanhar em tempo real esses registros.

Alex Brasileiro: Vamos lá, a primeira pergunta que eu queria fazer para vocês é: queria que vocês contassem para gente de onde surgiu essa ideia de registrar de uma forma tão poética o cotidiano das obras.

Igor Campos: Primeiramente queria agradecer o convite de vocês para de alguma forma contribuir e esclarecer eventuais dúvidas que possam surgir de alunos e dos públicos mais diversos. Com relação a fotografia, talvez, eu não seja a pessoa mais qualificada para dizer como a gente resolveu registrar… Eu acho que isso foi natural, sabe? A partir do momento que a gente começou a perceber que a gente teve a oportunidade talvez de até acompanhar e ser remunerado para fazer essa fiscalização da obra, a gente passou a entender a necessidade de registrar momento a momento, até para que isso se torne um grande diário da obra e que os proprietários possam ter esse registro, de uma forma não só técnica, mas também com um viés e um olhar mais atento as minúcias da execução do trabalho dos operários de como isso é feito… Então a ideia da gente foi um pouco registrar isso e o Hermes, que é meu sócio, ele é muito talentoso com a fotografia realmente, ele gosta muito, aliás a família né Hermes…

Hermes Romão: Três gerações de fotógrafos.

Igor Campos:  …já vem de longa data com o manuseio da máquina fotográfica, o olhar e o interesse… E realmente, eu acho que a gente sintonizou bastante, tem uma técnica muito boa, tem uma percepção e um olhar que a gente conseguiu mais ou menos intercalar e pra ver os passos construtivos mesmo de como é que é que as coisas são feitas, de como são executadas e essa relação na obra é um processo de aprendizagem muito grande, tanto pra gente, quanto para as pessoas também que estão nos auxiliando, sempre tem uma troca de informações bacana nesse sentido…

Hermes Romão: É, eu acho que o que a gente sempre tenta registrar é justamente a troca de informação, normalmente as fotos elas são das pessoas conversando, são das pessoas olhando alguma coisa que tem que produzir, que a gente conversou, que a gente na visita anterior talvez tenha falado para mudar… O registro é sempre desse momento de troca de informação e aprendizagem tanto com o pessoal que está no dia a dia na obra, que a gente aprende muito com eles e a nossa experiência no outro lado do que a gente imaginou para aquela obra, então isso é bem legal.

Alex Brasileiro: Legal. Nesses casos mais recentes a gente viu que vocês estão fazendo o registro de duas unidades residenciais…

Hermes Romão: Três na verdade.

Alex Brasileiro: Três né? Legal. Com está sendo esse processo? A gente queria saber se vocês são os responsáveis da execução da obra dessas residências ou se vocês tão sendo apenas fiscais do projeto, se é uma novidade no escritório de vocês ou se vocês sempre fizeram esse acompanhamento em registro e só estão divulgando esse material agora, ou resolveram tornar isso mais público.

Hermes Romão: A gente sempre fez essa fiscalização, na verdade a obra nós não executamos, nós somos fiscais do projeto de arquitetura, a gente vai a obra com a intenção de verificar se o executor está fazendo de acordo com o projeto, porque a gente sabe que, as vezes, eles tendem a fazer como eles já estão acostumados, a gente tem que investir para não deixar que isso aconteça e a obra saia de acordo com o projeto, né? O Igor já fez mais relatórios do que eu…

Igor Campos: É, o registro desse processo como um todo, a gente, a partir do momento em que…. Eu acho que é um pouco da própria circunstância que você colocou no início, ne? Eu sou professor do UniCeub e agora recentemente estou dando aula na Universidade de Brasília… E eu acho que a gente estruturou muito o escritório com base, talvez, nas minhas vivências, o Hermes foi até meu aluno, depois ele se tornou meu sócio… Então a gente tem uma estrutura muito rica nesse sentido e a questão do tempo, nós não tivemos a oportunidade em função dos compromisso que tínhamos até então de encarar a responsabilidade de executores da obra, porque o tempo da gente é curto, meu tempo é curto nesse sentido, então eu não tenho como administrar uma equipe para a gente gerenciar, contratar e tal… Essa gerência propriamente da obra a gente não consegue fazer. A gente tem alguns parceiros muito fortes, que trabalham com gente nesse sentido. E qual que é nosso papel? O nosso papel, realmente, e o que a gente tenta passar para os nossos clientes é o papel da fiscalização. A minha escola, como você mesmo colocou é um pouco da escola que eu aprendi com o Sérgio Parada. O Sérgio Parada é uma pessoa com a qual eu tenho uma profunda amizade, uma grande admiração e foi quem de alguma forma… eu costumo sempre brincar e dizer que ele é o responsável por eu estar onde eu estou hoje, porque a gente sempre aprendeu lá o processo de detalhamento que é um processo muito forte no escritório, de como é que a gente faz para executar, para construir, para detalhar, então, com essa preocupação no projeto propriamente dito, a gente carrega e trouxe para o escritório e as pessoas que trabalham conosco, acabam aprendendo um pouco desse processo. Então, o que a gente faz hoje, nos nossos projetos é detalhar sempre que possível a exaustão e levar esse projeto a obra, então o nosso papel na obra é de fiscalizar a execução, ver se ela está sendo feita evidentemente, em conformidade com aquilo que a gente pensou. É claro que a gente… quando você ta na obra, se depara com a obra, com a execução, nem sempre todos os detalhes que a gente acaba desenvolvendo são aplicáveis, não porque eles não sejam exequíveis, mas porque, eventualmente… até fruto das experiências dos próprios engenheiros ou mestres que estão conosco, eles nos mostram uma outra alternativa com base no detalhe que a gente fez.

Alex Brasileiro: Mas isso passa pelo crivo de vocês.

Igor Campos: Passa pelo crivo da gente.

Hermes Romão: É super discutido, a gente tem casos que a gente já fez protótipos para ver se ficaria bom, ne?

Alex Brasileiro: Faz experimentação.

Hermes Romão: Experimenta 2 ou 3 protótipos e verifica se vai ficar de acordo e a gente opta por um ou por outro, dependendo da preferência de execução até de quem está fazendo.

Igor Campos: Agora, o que eu acho que é muito importante a gente salientar, até no trabalho profissional da gente é que, assim, a importância do detalhe… O detalhe, ele é essencial, primeiro você não vai ser pego de surpresa na obra, você vai fazer um detalhe e vai levar esse detalhe à obra, o que vai acontecer é que quem, eventualmente, estiver executando, vai questionar aquele detalhe, aquela solução e evidentemente nesse questionamento, alguma outra nova solução pode surgir, inclusive melhor do que aquela que você havia previsto inicialmente, e isso aconteceu com a gente em vários momentos. Eu tive a oportunidade de trabalhar com o Valter que era, enfim… foi um dos grandes pioneiros aqui de Brasília, que fez toda a parte de marcenaria, dos trabalhos do Athos, da WS consultorias em madeira e nós fizemos alguns trabalhos com ele, ele era um cara que tinha uma experiência extraordinária e a gente fazia o detalhe e encaminhava para ele e normalmente ele falava: “ Olha Igor isso aqui pode ficar…”

Alex Brasileiro: Já voltava com sugestão, ne?

Igor Campos: Mas ele já voltava com sugestão, mas era com base em desenhos e discussões específicas em detalhes que a gente elaborava, então eu acho que você levar a solução é essencial, ela pode alterar? Pode. Mas com base em alguma orientação que você venha dar na obra.

Alex Brasileiro: Orientação técnica, ne?

Igor Campos: Orientação técnica, então eu acho que isso que é legal.

Alex Brasileiro: Assim, o nosso blog… ele tem esse viés muito de estar auxiliando novos arquitetos, de você abrir um pouco o horizonte, difundir essa informação, até para reforçar a nossa categoria dos arquitetos, enfim… A gente vê que muitos arquitetos têm essa dúvida de como é feito… digamos assim… essa parte contratual, de fiscalização de obra ne? Como é que você coloca isso no contrato? Como é que você oferece esse serviço para o seu cliente dentro do seu escopo de trabalho? Como é que isso funciona isso, aqui no escritório de vocês?

Igor Campos: É, a gente, normalmente… A gente segue… eu, inclusive, sou conselheiro do nosso conselho, Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal, e a gente segue, basicamente, as orientações do conselho, tabela de honorários do conselho e no conselho você tem uma orientação, também, de como cobrar as visitas técnicas, de como é que você pode estruturar. Normalmente, a gente faz isso com base em horas técnicas, estabelece uma ou duas visitas a obra, monta um processo de acompanhamento durante uns 5 ou 6 meses e estrutura isso…

Alex Brasileiro: Seriam visitas semanais?

Igor Campos: Visitas semanais. Ou dependendo do projeto, duas…enfim, depende muito da situação. A gente faz, acaba aferindo isso e faz esses relatórios de acompanhamento da obra com base nessa orientação da própria tabela de honorários do conselho.

Hermes Romão: Depende muito da fase da obra, ne? As vezes no começo a gente vai x vezes na parte da estrutura que exige que a gente esteja mais presente…

Alex Brasileiro: Vai virando as etapas e vocês já…

Hermes Romão: É… as vezes muita gente questiona :“Mas o final não é mais importante?” Não, nem sempre, as vezes a parte da estrutura é mais importante da presença da gente em cima… Então a gente estrutura mensal esse número de visitas pelas fases da obra.

Alex Brasileiro: E assim, experiências negativas que vocês possam passar para os jovens arquitetos de coisas que vocês passaram…

Igor Campos: Olha, eu tive uma experiência de fato muito ruim há um tempo atrás com essa questão da execução e eu na realidade havia… mas enfim, eu acho que isso acontece… eu havia contratado uma pessoa, contratado não, indicado uma pessoa para executar a obra e em um determinado momento, ela abandonou a obra por completo e como eu havia indicado, eu me senti na responsabilidade moral deter que assumir e conduzir…

Alex Brasileiro: Resolver o problema.

Igor Campos: Resolver o problema… até porque é essa a expectativa de todos os nossos clientes, que nós venhamos a resolver todos os problemas.

Alex Brasileiro: Somos “revolvedores” de problemas…

Igor Campos: Exatamente, então eu não poderia deixar com mais esse problema, então a gente criou uma estrutura, enfim, foi um apagar de incêndio bem complicado. Então, essas parcerias que a gente faz e vai construindo ao longo da experiência da gente, acho que elas são essenciais, dos próprios profissionais que executam, com os profissionais que fazem os projetos complementares com a gente, então essa… ao longo do processo que a gente vai adquirindo, a gente vai conseguindo consolidar boas parcerias.

Hermes Romão: Com o tempo elas facilitam e você tem menos problemas.

Alex Brasileiro: A tendência é ter cada vez menos problema, ne?

Hermes Romão: É exatamente.

Igor Campos: De fato, isso que você está dizendo é uma verdade, a gente vai tateando, para ver até onde a gente consegue, nós já executamos obra, eu já executei obra também, mas o desprendimento de tempo, de esforço, em função dos compromissos que eu tenho, até então são muito complicados, então você vai mais ou menos conseguindo encaixar a fiscalização, não nos toma um tempo muito grande, toma, claro, mas isso a gente consegue prever dentro das atividades do projeto e a gente vai conseguindo mais ou menos encaixar dentro da estrutura do escritório os serviços que a gente consegue prestar com qualidade, ne? Acho que é um pouco essa preocupação que a gente tem que ser sempre.

Alex Brasileiro: Manter sempre o padrão de qualidade, não dá para querer abraçar o mundo.

Igor Campos e Hermes Romão: Não, não dá.

Alex Brasileiro: Assim, você chegou até a falar a questão do detalhamento, de detalhar a exaustão, essa pergunta se trata disso, até que ponto um projeto deve ser detalhado para ser executado conforme os autores gostariam que fossem executados e a inexistência desses detalhamentos até que ponto isso pode prejudicar o portfólio do arquiteto. Esse é o ponto, que assim é muita dor do arquiteto, você chegar na obra e você ver que aquilo não foi executado de acordo com o que você projetou.]

Hermes Romão: Eu acho que é inconcebível não ter detalhe, não dá, isso é arquitetura, detalhe tem que existir ne? A gente aqui … o pessoal fala que a gente até exagera, mas eu acho que é melhor exagerar do que faltar

Igor Campos: Eu acho que até o exagero é uma segurança que a gente acaba criando para gente, um pouco esse reflexo.

Alex Brasileiro: É uma coisa que a gente fala, ne? Documento, ne? Está documentado, ne?

Igor Campos: Exatamente, isso está documentado. Então assim essa questão do detalhamento eu acho que ela é essencial, como eu disse anteriormente, eventualmente, pode não ser executado da forma que você imaginou, mas sem ele você está completamente sujeito a ter problemas maiores, agora isso que você está dizendo do portfólio, a gente já passou por esse processo, eu já tenho 18 anos de experiência profissional…o que  acontece é que a gente aos poucos vai aprendendo por mais que você tenha um projeto muito bem detalhado, se você não conseguir de fato, estar vinculado com a obra de alguma forma, aquilo que você fez  eventualmente pode se perder e não ser executado da maneira com que você gostaria. Então o acompanhamento, eu acho ele essencial, mesmo que você tenha um projeto muito bem feito, muito bem detalhado, se você conseguir evidentemente vincular seu acompanhamento e fiscalização, aí você consegue assegurar um bom projeto executado.

Alex Brasileiro: Você gostaria de deixar alguma mensagem para os jovens arquitetos, os arquitetos que tem esse interesse…

Igor Campos: Você que é um jovem arquiteto… eu não sou mais

Hermes Romão: Já estou me sentindo mais velho

Igor Campos: Eu acho que tem que ter perseverança, eu acho que é isso, a gente acaba construindo um pouco do histórico da nossa atividade profissional, com base nessa perseverança com base num trabalho sério, num trabalho qualificado e tentar se cercar de bons profissionais e bons colegas, que a gente consiga de fato se estruturar um trabalho diferenciado e sobretudo, acho que para as novas gerações, que a gente acaba trabalhando com elas, trabalham conosco aqui no escritório: paciência. Tem que ter muita paciência, com calma que a gente acaba conseguindo…

Hermes Romão: É, tem coisas que demoram décadas para acontecer, tem que esperar mesmo. Porque quando a gente forma, a gente acha que tudo vai acontecer, que você vai ter seu escritório, você vai ter 10 casas construídas nos primeiros dois anos e vai ser tudo lindo, só que a realidade é bem diferente, talvez nos primeiros 10 anos você não tenha nem escritório.

Igor Campos: Mas tem que ser com calma, acho que calma, sem estresse, sem correria, se qualificando com cursos de qualificação, enfim…

Hermes Romão: E sempre cobrar de você mesmo… acho que sempre achar que nada está bom o suficiente, que você sempre pode melhorar. O Raimundo do escritório, ele sempre fala… a gente olha, olha… e ele fala assim: “ Isso dá para melhorar não dá? ” Aí ele: “Dá” aí ele pega, ele vê e faz… isso acho que todo mundo tem que se cobrar mais para poder sempre estar melhorando.

Alex Brasileiro: Legal! Pessoal, por hoje é só, queria agradecer aqui ao Igor Campos e ao Hermes Romão por nos receberem aqui no escritório, no MRGB, vamos deixar o link do escritório para vocês acompanharem e que mais arquitetos, novos arquitetos possam se espelhar, assim como nós aqui, ne? Do BoraNaObra no trabalho dessas duas figuras para que nossas cidades, nossas casas e edifícios… consequentemente nossas cidades sejam mais belas.

Igor Campos: A gente que agradece o convite e enfim… na expectativa que de fato esse trabalho que vocês estão desenvolvendo tenha uma repercussão grande para… acho que isso é bacana, essa troca de informações é sempre muito rica e acaba auxiliando os colegas, a gente não pode ter receio de compartilhar informação porque isso é importante para o crescimento da profissão, acho que isso é o mais importante.

Hermes Romão: Até a unificação…

Alex Brasileiro: Tornar a classe, os arquitetos mais unidos, se fortalecer… Tá bom?

Igor Campos: Obrigado! Eu que agradeço.

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